sábado, dezembro 30, 2006

A morte

Posso dizer que vi o que a morte faz. Posso dizer que a vi várias vezes e nas piores formas. Não vou discutir os pormenores ou a razão. Apenas digo que vi.

"--Detem-te! O que ias fazer?

--Tocar n'esta caveira--respondeu o mancebo com voz tranquilla.

--Com que fim?

--Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora.

--Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano?

--Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria...

--E depois?

--Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano.

--Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e impuros?

--Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão.

--Materialmente, disseste?

--Disse.

--Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes,visto que tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo do Nada?

--Não.

--Explica-te.

--Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar.

--Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo?

--De um meu irmão.

--É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante? Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será d'um plebeu?

--Ignoro.

--Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?

--Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito dos vivos."

Os Filhos do Padre Anselmo, Sá d'Albergaria

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